Por Vinicius Padilha Carr
O encaminhamento de espíritos sofredores é o principal Trabalho da instituição Terra de Obaluaê. Esse transporte é descrito dentro do Espiritismo e é um trabalho comum nos Centros Espíritas e Terreiros de Umbanda. Na linha espiritual da Doutrina do Santo Daime foi a forma como se desenvolveu os trabalhos mediúnicos recebidos pelo Padrinho Sebastião.
No início da Terra de Obaluaê logo constatei que seria o chamado carro-chefe dentro dos trabalhos desenvolvidos na casa em formação. Num primeiro momento nomeamos os trabalhos desse porte como Trabalho de Iluminação, após um tempo o grupo percebeu que este nome continha uma egrégora vinda de uma outra casa espiritual diferente do segmento que buscávamos nos alinhar, então passamos a nomear como Trabalho de Caridade. Padrinho Sebastião nomeou este tipo de sessão como Trabalho de Estrela; seja chamado de Trabalho de Estrela, Trabalho de Iluminação ou Trabalho de Caridade, o objetivo é o mesmo: encaminhar espíritos sofredores, doutrinar espíritos obsessores e promover a cura espiritual. O que muda nos trabalhos citados é o hinário a ser cantado, a estrutura técnica e espiritual para a realização deles é a mesma.
Esse pequeno texto não tem o caráter de um vislumbre histórico sobre esses trabalhos e tampouco em explicá-los de forma pormenorizada em suas diferentes camadas. Procurarei me deter na classe nomeada de espíritos sofredores e em como os médiuns, a corrente espiritual e a casa são afetadas pelas dinâmicas de trabalho com essa difícil classe de espíritos.
Num primeiro momento há que se deixar claro que o termo espíritos sofredores abarca uma imensa quantidade de variáveis. São muitos os sofredores e o sofrimento que os leva a esse estado de vida espiritual, existem pequenas subclasses que nos leva a formas de procedimento específicas. Para o médium que trabalha diretamente com essas energias torna-se necessário um estudo básico sobre estes seres e em como se prepara corretamente para este tipo de trabalho. O médium de transporte, como é comumente chamado os médiuns que acoplam espíritos sofredores, requerem um regime integral de autocuidado e reforma íntima pois são os mais propensos a estarem abertos a energias de todos os tipos.
O espaço espiritual que abarca o espaço físico onde esses trabalhos acontecem também são afetados diretamente pelos espíritos sofredores. Irei partir do espaço e procurarei traçar paralelos com os médiuns e a corrente da casa. Todas as igrejas que realizam um trabalho voltado aos espíritos sofredores possuem em sua contraparte espiritual um pronto-socorro. Para quem está ambientado com a literatura de André Luiz, o famoso espírito que psicografava através de Chico Xavier, já conhece em detalhes como funciona os hospitais espirituais nas cidades do plano espiritual.
Para além do conhecimento da vida do outro lado, André Luiz também nos trouxe inúmeros detalhes que nunca antes tinham sido revelados, os pontos de luz na crosta terrestre são um dos mais assombrosos casos de revelação trazidos por este espírito que tanto contribuiu para o entendimento de como continua a vida no plano espiritual.
Os pontos de luz nas proximidades da crosta terrestre e do umbral são comumente chamados de pronto-socorro. São bases avançadas que funcionam exatamente como um pronto-atendimento onde se faz a primeira triagem de encaminhamento dos seres que lá chegam. Há de se ter uma segurança muito bem equipada e preparada para que os prontos-socorros existam em locais onde facilmente podem ser atacados. Os ataques espirituais de seres trevosos e rebeldes é mais comum do que se imagina, os prontos-socorros são alvo desse tipo de ataque por estarem próximos ou praticamente dentro das zonas umbralinas. As igrejas de Santo Daime que realizam os trabalhos com espíritos sofredores e certamente tem os prontos-socorros instalados em sua contraparte espiritual viram alvo direto dos seres invertidos que possuem uma noção muito equivocada de justiça.
Um grande problema que pode ser apontado aqui é o fato de os prontos-socorros serem altamente protegidos por guardiões espirituais treinados para esse tipo de combate – os nossos conhecidos Exus. Os Exus junto a outros seres espirituais executam a guarda de um pronto-socorro sem depender de nenhum aporte físico, é de espírito para espírito. Quando se trata da guarda e proteção de ambientes físicos os Exus necessitam de um trabalho conjunto com os encarnados que trabalham na igreja, e é aí que pode haver dificuldade. Uma tronqueira firmada é a parte física desse trabalho conjunto, para além do que os olhos podem ver, os Exus de guarda precisam que os médiuns estejam em processo verdadeiro de reforma íntima, o processo de burilamento consciencial é importantíssimo para a proteção do recinto onde se fazem os trabalhos espirituais. Os seres trevosos agem principalmente no inconsciente. Muitos acreditam que os ataques espirituais vêm através de peia, limpezas e possíveis dores físicas. Quase nunca é isso. Os ataques espirituais de alta monta e prejuízos para a corrente, acontece com sugestões de intrigas, os seres malignos têm uma habilidade e uma percepção apurada para sentir a sombra de cada um. Seres que habitam nas trevas conhecem a treva interna que cada um carrega dentro de si. Uma simples antipatia é explorada até virar uma verdadeira contenda. Aquilo que o médium tem em desequilíbrio é explorado para ser sua derrocada, e consequentemente enfraquecer a corrente e abrir brechas para os obsessores dominarem o espaço.
O objetivo dos seres trevosos é encerrar o trabalho espiritual de transporte. Os espíritos sofredores são usados de diferentes formas por estes seres, o sofrimento é moeda nas zonas umbralinas, para os mestres do terror quanto mais dor e sofrimento, maior é o seu poder. Existe uma verdadeira guerra espiritual nas zonas inferiores do plano espiritual, as guerras entre tribos e nações apenas espelham as guerras no plano espiritual inferior. O macro reflete no micro, e a última ponta desse cosmo é o médium. O pronto-socorro é atacado, o espaço físico é atacado, a corrente é atacada, e o médium que presta um serviço na casa onde se filiou, será atacado de forma contínua. O médium será levado ao desgaste físico e mental, será abalado emocionalmente, terá amizades e familiares prestando julgamento negativo ao seu trabalho mediúnico, virará joguete na mão de obsessores, terá suas noites de descanso perturbada por espíritos zombeteiros que não o deixarão dormir, sofrerá com aproximações espirituais nos lugares mais improváveis, se sentirá cercado de vultos e sons vindos do além. O médium de transporte é o mais aberto aos ataques dos espíritos trevosos, e isso tem raízes em suas vidas passadas, nada tem a ver com a energia dos inúmeros espíritos sofredores que o cercam. O trabalho junto aos sofredores encarnados trouxe a calúnia e difamação para as vidas de Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, Padre Júlio Lancellotti e muitos outros que dedicaram suas vidas ao auxílio aos mais necessitados. O médium que trabalha com os espíritos sofredores atrairá os mesmos olhares maldosos. A caridade não é bem-vinda em nenhum plano seja material ou espiritual, é julgada e mal interpretada, criticada e vista com teor político ou puramente egoísta. Na espiritualidade a caridade é alvo dos piores ataques vindo de magos corrompidos e outros seres ainda mais densos. Trabalhar com a caridade é transformar-se num alvo direto de assassinos, vide o que aconteceu com Jesus Cristo.
Necessita-se de um amparo espiritual para executar esse tipo de trabalho. No caso da Terra de Obaluaê, o Orixá que nomina a casa deu a ordem espiritual para este tipo específico de trabalho. Obaluaê é o Orixá das doenças, em África era o deus da varíola, tem fama de ser um Orixá pesado, é temido e respeitado. O Orixá que promove a cura para as piores pestes que assolam o povo é o Orixá coberto de palhas simples e rosto coberto. Promove a cura e não se mostra, mitologicamente é um rei que caminha descalço e curvado. A caridade se reconhece na simplicidade. Obaluaê é o Orixá da caridade, sua imagem espiritual é de caminhar pelo umbral e com suas milhares de palhas ir recolhendo os espíritos sofredores que dormem o sono perturbado das inconsciências completamente alteradas. Obaluaê socorre os desesperados, aqueles a quem não tem mais nada. O Orixá das provações e expiações mais sofridas mandou abrir uma igreja de Santo Daime com uma linha de trabalho voltada ao Umbandaime e abriu as portas da igreja aos espíritos sofredores. Somente com esse amparo espiritual é possível realizar os Trabalhos de Caridade.
O Trabalho de Caridade começa muito antes do dia estipulado para acontecer a sessão. Nas zonas umbralinas as falanges socorristas recolhem os espíritos para a primeira triagem. Espíritos que dormem de forma profunda são levados para os galpões das almas – imensos hangares onde são tratados para que despertem do sono da morte. Existem espíritos que dormem durante anos acreditando que a morte é o sono eterno. Espíritos em profundo estado de desequilíbrio mental são levados aos prontos-socorros, os muito alterados precisam ser levemente sedados para que se inicie uma retomada da consciência.
Espíritos desequilibrados que conseguem ser contidos podem ser levados ao Trabalho para o choque ectoplásmico com os médiuns. Esse é o primeiro grupo de espíritos sofredores – os desequilibrados mentais; sua incorporação é completamente tresloucada, sem nenhum gesto que faça sentido, aparvalhados e se mexendo descontroladamente, não conseguem ficar sentados e em médiuns pouco treinados acabam indo ao chão e se debatendo muito. Nessa situação não há necessidade de encaminhamento verbal, o espírito sequer escutaria. O objetivo é que através do choque da incorporação e do acesso ao ectoplasma do médium esse espírito possa voltar à consciência. Em determinadas situações o mesmo espírito tem que retornar para um novo choque ectoplásmico.
Espíritos sofredores que têm consciência do seu estado podem ir ou não para o Trabalho. No pronto-socorro, através dos médicos espirituais, eles definem quais são os que devem passar pelo processo da incorporação e quais os que já estão prontos para serem encaminhados direto para um hospital espiritual. Na sessão estes se manifestam chorando e grunhindo, é muito comum que os médiuns sintam parte da história do espírito que estão aparelhando, não verbalizam nada, quando muito gritam, o estado é de pavor e muita dor. Médiuns sem educação mediúnica podem se exceder e ir ao chão gritando e rolando. Palavras de boas-vindas podem ser ditas pela fiscalização pois estes espíritos escutam e após o processo podem recobrar o tratamento. O Daime pode ser ministrado segundo o comando da casa.
Um pequeno grupo de espíritos sofredores são totalmente conscientes de seu estado espiritual, já estão em tratamento nos hospitais e são encaminhados na sessão porque problemas da matéria só são resolvidos na matéria. Pode acontecer desses espíritos virem e conseguir expressar seus sentimentos de medo, dúvida, tristeza e as mais variadas dores. O encaminhamento deve ser realizado na palavra amorosa e com Daime.
Até aqui vimos os tipos de espíritos sofredores trazidos diretamente pelo amparo da misericórdia divina. A outra classe de espíritos sofredores que vem ao Trabalho são trazidos pelos espíritos obsessores que estão ali para atrapalhar a sessão. Alguns espíritos obsessores – e não cabe a esse texto explicar o trabalho com os obsessores, cabe um outro artigo que se debruce apenas nesta complicada classe de espíritos – para causar desgaste físico aos médiuns e à corrente espiritual trazem espíritos sofredores perturbados e zombeteiros. E os Exus e guias espirituais permitem essa manobra das trevas pois entendem que ao querer exaurir a sessão com uma energia negativa pesada os espíritos obsessores estão fazendo um bem ao trazerem a turba que julgam irá atrapalhar o Trabalho.
Os espíritos sofredores recolhidos pelos obsessores são seres que apesar do sofrimento que os aflige ainda se encontram com muita energia de raiva e ódio. São os chamados sofredores negativos, espíritos que apesar de seu sofrimento ainda se encontram voltados ao mal, à vingança e à ruindade. Esses seres são extremamente pesados em termos de vibração, não conseguem se comunicar, não choram, apenas gesticulam de forma violenta e mascaram nos médiuns uma imagem de ódio e revolta. São espíritos rebeldes e apesar do sofrimento que carregam em seus campos mentais ainda estão longe de assumirem uma condição de pedirem ajuda. O choque ectoplásmico com os médiuns lhes abre de forma vagarosa a consciência para o perdão. Sua incorporação deve ser conduzida de forma rápida pois um tempo excessivo de acoplamento pode levar o médium a baixar sua energia num nível de exaustão e cansaço mental.
Espíritos sofredores zombeteiros são a pior classe a ser tratada nesse pequeno artigo. Um espírito zombeteiro é um obsessor com uma qualificação a mais, atua de forma desequilibrada nos médiuns e em toda sessão. Num Trabalho com médiuns e fiscais inexperientes basta um espírito zombeteiro para atrapalhar bastante a sessão. Um espírito sofredor que tem traços de zombaria não consegue (ainda) articular planos para atrapalhar o andamento da sessão, mas já comparece sabendo que irá perturbar. Ele está em sofrimento, ele sabe de sua condição de desencarnado, mas ele não aceita (por algum motivo pessoal) aquele tipo de trabalho espiritual. Espíritos desencarnados de católicos e evangélicos podem estar nessa situação, ao despertarem para a vida espiritual se revoltam pois percebem que a fé que professaram em matéria não os levou ao céu, ao serem levados nos trabalhos espirituais ou por espíritos obsessores, ou por ligação cármica com algum médium na corrente, acabam causando extremo desconforto e tensão em toda a sessão.
A forma de lidar com este tipo de espírito que é muito difícil identificar num primeiro momento varia de acordo com o estado que é apresentado. O médium experiente vai sentir que precisa deixar o doutrinamento acontecer e após a primeira incorporação não permitir mais seu acoplamento. Esse tipo de espírito é descoberto por ficar retornando na mesma sessão mais de uma vez, mas não é tão simples desvendá-lo já que esse é um traço que também se apresenta em obsessores e zombeteiros tradicionais. É tênue a energia que os diferencia, mas é possível de ser percebida tanto pelo médium experiente quanto pelo fiscal que também possui experiência. Apenas a frequência nos trabalhos espirituais e a disciplina de estudo e aplicação do método trazem a experiência e o aprimoramento para identificação desses seres.
Existe um outro processo característico de casas que realizam trabalhos com espíritos sofredores, a experiência de alguns médiuns de incorporarem estes seres fora da sessão para este fim, e fora de qualquer sessão. A Terra de Obaluaê faz outros trabalhos espirituais com outros fins e faz alguns trabalhos que são de exercício em outras esferas (mutirões de limpeza e reparos nas instalações) e já aconteceram processos de transporte de sofredores em todos esses casos.
Geralmente transporte de espíritos sofredores fora do ambiente mediúnico é um sinal claro de que a casa e os médiuns estão sofrendo um ataque espiritual. Novamente cabe a ressalva que os ataques espirituais têm de ser tema de um outro artigo, não cabendo neste curto espaço abrir a explicação e os pormenores de suas variáveis. De forma resumida posso afirmar que os ataques espirituais abrem as portas para os espíritos sofredores vagarem de forma desordenada no espaço astral da igreja. Os Exus e espíritos que guardam a Casa observam o processo e deixam acontecer por justamente entenderem que nessa situação a caridade está sendo feita. Tem que haver uma confiança espiritual na direção da casa, uma confiança total nos Exus da casa e um aprimoramento de entendimento que é pessoal, individual e pode ser construído.
Para encerrar esse texto cabe trazer a figura do médium que faz o transporte dos espíritos sofredores. Esse tipo específico de mediunidade é o que possui o maior carma, ou seja, possui um débito a ser pago perante os erros do passado e a mediunidade está sendo usada para a caridade e com isso saldar a dívida espiritual. Todos os médiuns de transporte são grandes devedores. Isso não significa que um médium de incorporação que não recebe ou quase não recebe espírito sofredor está com um carma mais equilibrado. Doenças, percalços na vida, solidão e desamor são formas de se pagar uma dívida cármica. Em alguns casos apenas a mediunidade não basta.
O médium de transporte precisa se cuidar integralmente. Ociosidade faz a antena vibratória mediúnica captar redes de vício e prazeres excessivos. O médium deve se manter em atividade. Evitar lugares com muita gente, uma grande circulação de pessoas, um grande aglomerado reúne muitos espíritos perdidos, o médium de transporte vai carregar muitos deles pois está fazendo seu trabalho, mesmo que inconsciente. É necessário saber se descarregar, seja preparando banhos de ervas, seja realizando o culto do evangelho no lar, seja mantendo um altar doméstico sempre cuidado e com energias circulando através de cânticos e orações. O médium precisa aprender a se proteger, seja com uso de guias (que só irão funcionar se o coração e a mente estiverem alinhados), seja com ritos mais potentes: ebós e sacudimentos.
E mesmo tomando cuidados e precauções o médium precisa entender que ainda assim ele será atacado. Mosquitinhos buscam a luz, o sinal que o médium de transporte lança no plano astral é doce. O médium de transporte é uma flor aberta, os espíritos sofredores são o beija-flor.
“É beija, é beija-flor
Que minha mãe me entregou
Para afastar as doenças
De quem for merecedor”
Padrinho Sebastião, O Justiceiro #63
Vinicius Padilha Carr
Fundador e Dirigente do Centro Eclético de Fluente Luz Universal Terra de Obaluaê – CEFLUTO.
